A pessoa que imaginamos

A cultura, a história e a vida formam o nosso carácter e a nossa natureza. Numa primeira fase, até ao fim da adolescência, eles são o paradigma vigente da nossa vida. São as letras que criam o poema que somos. Gostamos de chocolate porque a nossa mãe adora, sonhamos com praia porque o nosso pai é pescador, adoramos ler porque a nossa avó nos contava histórias incríveis, somos de colo porque os nossos pais nos deram colo, somos do Belenenses porque os nossos amigos são também, gostamos de falar alto porque na escola todos o fazem, achamos errado roubar e agir de má fé  porque o ouvimos vezes e vezes sem conta na  nossa igreja.

É muito interessante que estes factores influentes (família, amigos, local, história) também definem os nossos desejos no que toca ao companheiro e ao que imaginamos para a nossa vida com esse companheiro. Quando somos novos todos pensamos no nosso futuro com alguém, a cumprir todas as regras e cânones definidos como normais, dentro da nossa cultura e sociedade. No meu caso, sonhamos com uma relação exclusiva, com uma pessoa perfeita e séria, fiel e que nos respeite e esteja do nosso lado de forma dedicada.

O desafio é que muitos de nós não saímos, ou não conseguimos sair, desse modelo. Não arriscamos o saltar do conhecido e esperado para procurar, por nós, algo de novo ou diferente ou até mesmo igual que pode existir ao virar da esquina. E que só saberemos depois da descoberta.

Aqueles que não têm coragem de experimentar, de procurar, de investigar acabam muitas vezes presos ao modelo vigente e aos fracassos desse mesmo modelo. E vivem, entre alegria e tristeza, os acontecimentos comuns e espectáveis. Repetidos vezes e vezes sem conta ao longo da história. E isso é tão grave que muitos pensam assim: se não é com este que vou satisfazer e concretizar o meu sonho será com aquele. Ou então: estes homens são todos iguais, uns falsos, uns imorais, uns indecentes. Ou: as mulheres são todas a mesma coisa, só servem para uma coisa, uma pessoa quer algo mais e fica logo lixado.

E dessa ilusão ou desilusão vão substituindo a pessoa X pela Y, e cada vez mais seguros que não vai funcionar, ou, no lado oposto, que tem mesmo de funcionar. E desse desejo de cumprir um modelo, os parceiros que vamos encontrando acabam por satisfazer essa imagem e esse modelo. Porque é o que procuramos.

Mas não ter em consideração a pessoa que somos e a pessoa com quem estamos, não imaginar a vida a dois, construída a dois, não estar disposto aos sacrifícios e esforços de uma experiência verdadeiramente partilhada vai resultar em mais do mesmo.

O modelo vigente faliu! Por tua causa! E pela minha! Pela de todos. E por alguma razão insistimos em não ver.

A solução passa por algo novo. O trabalho profundo e sério de descobrir quem somos, o que queremos, e acima de tudo porque é que o queremos. Se é por nós ou por um qualquer critério histórico, familiar, ideológico ou social. E ter a coragem de rebentar com isso, procurar e escolher e experimentar e arriscar.

E se este processo, na relação actual, falhar reflectir sobre o que aprendemos, no que correu bem e no que correu mal, e seguir em frente. E continuar a procurar, até descobrir o que queremos, até que sejamos capazes de a dois construir a pessoa que imaginamos ser e a relação que queremos ter.

por Bernardo Ramirez

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